Noite chata

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Era só mais uma noite chata na cidade de São José. A chuva que caia desde o dia anterior era cada vez mais forte. Vento, relâmpagos e de repente escuridão. Fábio esgueirou-se pela parede até chegar próximo ao sofá. Alcançou seu celular que costumeiramente ficava sobre a mesinha ao lado e tentou sem sucesso sintonizar uma estação de rádio.

O vento que poucos minutos antes uivava e envergava as árvores subitamente parou. Então Fábio resolveu pegar sua moto e ir para um local onde houvesse luz. Vestiu seu equipamento de chuva, montou na sua motocicleta e saiu em disparada.

Algum tempo depois Fábio avistou um clarão no céu e rumou na sua direção. Certamente lá havia luz. Chegando perto do lugar percebeu que havia um protesto. Carros incendiados, postes caídos, gente ferida por todos os lados, soldados… Um verdadeiro caos!

Então acelerou sua moto para se afastar. Escutou um estampido ensurdecedor e sentiu uma dor aguda que lhe dilacerava as entranhas. Olhou para trás e viu sirenes. Soldados o perseguiam. Certamente achavam que estava envolvido no protesto.

Ferido, encontrava dificuldade para desviar sua motocicleta da multidão. Olhou para trás novamente para ver se as sirenes ainda o seguiam. Distraído nem notou o buraco logo a frente. Virou-se de volta e sentiu seu corpo leve, era como se voasse. Um vento frio lhe atingia o rosto.

Será que o ferimento era grave?

Será que havia morrido?

Então é assim a morte? Não era tão ruim quanto sempre imaginara!

De repente viu uma coisa escura e cheia de pedregulhos se aproximando. Era o chão. Fechou os olhos e tentou proteger o rosto. Não sentiu nada. Quando abriu novamente os olhos, viu o teto do seu quarto. Olhou para o relógio ao lado da cama. Eram três horas da manhã. Foi só um susto. Foi só um sonho.

Texto: Dario Souza da Silva – Ao reproduzir, favor citar a fonte.

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Depois da chuva

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Depois da chuva

Depois da chuva

 

Já se passava quase um mês desde a última chuva. Talvez aquele fosse o verão mais rigoroso de que se tenha notícia. Com as altas temperaturas as praias estavam sempre lotadas. Porém, aquele dia amanheceu com nuvens negras de uma cor intensa e amarronzada. Todos olhavam para o céu com um olhar curioso e desconfiado. Muitos acreditavam que fosse uma invasão alienígena ou algum tipo de experimento científico. Alguns mais românticos acreditavam que pudessem ser nuvens de chocolate. Fanáticos religiosos anunciavam o fim dos tempos. As ruas ficaram lotadas de curiosos olhando para o céu. Todos queriam saber porque o dia estava nublado de marrom.

O exército e a polícia saíram as ruas para conter a onda de vandalismos que se instaurou. Lojas eram saqueadas, carros eram queimados, casas eram arrombadas… O caos se formou. De repente um trovão e algumas gotas. Ao ver que era um líquido marrom, as pessoas abriam a boca para engolir diretamente ou arranjavam formas de armazenar a tal chuva. É chocolate meio amargo alguns gritavam. Quando a chuva engrossou um mal cheiro se espalhou pelo ar, quando então alguém gritou:

– É merda! Corram que isso é merda.

Alguns dias se passaram e a tal chuva não passava. A imprensa anunciava situações de emergência e calamidade pública por todos os cantos. O governo criou o bolsa merda que dava direito a um serviço de limpa fossa por mês às famílias que cagassem até no máximo trinta vezes no período. Políticos tentavam se promover com a promessa de limpar toda a merda acumulada nas cidades e eliminar a que vinha la de cima.

De repente após um longo período a chuva parou e o clima voltou ao normal, no entanto a merda continua espalhada até hoje. Nas sedes dos governos, nos hospitais, nas estradas, ferrovias, aeroportos, campos de futebol, escolas, nos presídios. Em tudo! O povo se tornou descrente. Acostumou com a merda e aprendeu a lidar com ela.

Autor: Dario Souza da Silva.

Ao reproduzir, favor citar a fonte.

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O tempo

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Escrevi um novo texto. segue abaixo.

Autor: Dario Souza da Silva

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         O tempo que à ele parecia tão apressado naqueles dias, de súbito parou. Tudo era a mais absoluta calma. O vento era fresco e suave como nas graciosas manhãs das primaveras tropicais. Os pássaros tornaram a entoar suas doces e alegres melodias matinais. O Sol raiava no horizonte num amarelo ouro reluzente que ele nunca antes vira, tamanha era a sua beleza. O som do vem e vai das ondas agora lhe era tão nítido que ao invés de acalma-lo, convidava-o a um mergulho.

      Naquele dia um simples folhear de revista, um trejeito qualquer de alguém que outrora passaria despercebido, uma pequena formiga carregando, provavelmente para o ninho, uma folha muito maior que se supõe que suportaria. Um chiclete sendo mastigado, uma gota escorrendo de uma garrafa de refrigerante recem aberta. Tudo lhe chamava a atenção.

    O ônibus que de costume lhe causava perturbação devido a quantidade de pessoas, sons e situações que ali ocorriam. Como na ocasião em que o cobrador ajudou uma moça a descer da condução e encantado com sua beleza esquece-se de retornar para o veículo, ficando ali esquecido pelo motorista que nem notara sua falta até que alguém o avisou. O fato é que ele continuava ali estarrecido com o bucólico arrastar dos segundos.

    Olhou então para o seu relógio e reparou que o ponteiro não pulava de um segundo para o outro, mas sim deslizava num suave e quase imperceptível movimento. O movimento dos ponteiros do seu relógio era constante. Então, como podia estar o tempo tão devagar naquele dia? – Indagou-se então se o problema não seria com a pilha do aparelho. –  Já não fazem mais pilhas como antigamente – pensou. Neste momento sua atenção se voltou para fora do ônibus, já estava se aproximando do seu destino. Desceu do coletivo como que se estivesse acontecendo uma solenidade cheia de cerimônias e burocracias. Nunca antes se ateve a quantidade de tarefas necessárias para se descer de um ônibus.

    Entrou no estabelecimento e apresentou-se. – Pois não, pode aguardar um momento por favor, vou anunciar sua chegada. – responde-lhe a simpática recepcionista, com um sorriso daqueles que se consegue pronunciando a letra x, e articulando bem os músculos da face. Sentou-se numa poltrona que havia no canto da sala, pegou em seu bolso um plástico bolha e começou a estoura-lo. Conseguiu notar cada movimento de cada bolha ao ser estourada. Percebia perfeitamente como a bolha ao ser apertada de inchava, seu plástico envoltório ia se esticando até que chegava ao limite da sua resistência e lentameente começava a rasgar-se formando uma fissura. Pelo furo criado saia o ar lentamente seguido de um estralo demorado. Algum tempo depois a moça retornou anunciando que poderia entrar.

    Ele levantou e caminhou e dirigiu-se até a outra sala. passou por um longo corredor no qualhaviam obras de arte de picasso, – réplicas provavelemente – pensou ele enquanto caminhava. Sentiu que seu coração havia acelerado um pouco, ouvia o barulho dos seus passos como se fossem bombas a explodir sobre o alvo. E então alguém lhe estendeu a mão.

     Naquele dia o tempo havia parado. E parou porque ele tinha medo de dentista e se encontrava agora sentado na cadeira, prestes a abrir a boca e sentir gosto amargo que a coragem deixa quando se esvai.

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Se usar este texto, favor citar a fonte.

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O CASO DO COLÉGIO MERCADO

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O CASO DO COLÉGIO MERCADO

Autor: Dario Souza da Silva

Dizem que economia é algo complicado de se entender mas na verdade não é. Qualquer um que já esteve num colégio e se interessou por alguém da sala ou teve algum tipo de relação amorosa, flerte ou uma forte amizade é capaz de compreender como funciona o Equilíbrio de mercado. A lógica é a mesma para ambos os casos.
Acompanhe a história de amor e ódio que acontece no colégio mercado desde que um certo rapaz por lá apareceu.

Oferta e Demanda eram duas meninas que moravam na mesma rua e estudavam no colégio Mercado. As duas sempre se odiaram e tinham uma mania incrível de competição. Sempre que a Oferta chegava numa festinha ou numa rodinha de amigos a Demanda inventava logo uma desculpa para sair de perto.
Era engraçado como apesar de as duas meninas não se suportarem uma estava sempre ligada a outra. Eram as duas meninas mais bonitas e mais inteligentes da sala. Quando uma estava em evidência a outra se sentia por baixo.

Acostumados com a competitividade entre as duas meninas os colegas sempre comentavam:

– Você viu como a Oferta colocou a Demanda lá em baixo no trabalho de economia?

– Vi sim, mas pode ter certeza que no próximo a Demanda vai vir com tudo e jogar a Oferta lá em baixo.

Um dia chegou no bairro e consequentemente no colégio um rapaz muito bonito. Seu nome era Preço.
As duas meninas ficaram loucamente interessadas por esse rapaz. Oferta era uma menina rica que apesar de achar o Preço um rapaz super interessante e atraente, só aceitava andar com ele se ele viesse de carro. Jamais andaria de ônibus.
Já a Demanda era uma menina pobre e simples e se sentia melhor andando com o Preço quando ele estava de ônibus ou a pé.

Um dia Preço foi para a aula com o seu carro modelo “Produção 100%” e todo mundo percebeu como ele estava em alta. A Oferta ficava toda boba andando ao lado do rapaz, nunca antes sentira uma “Intenção de venda” tão grande. Nesse dia o Preço tentou falar com a Demanda que não lhe deu muita bola.

No dia seguinte querendo impressionar a Demanda, Preço foi caminhando até o colégio. Chegando lá a Demanda lhe deu um grande sorriso, lhe deu a mão e saíram caminhando, ela nunca sentira tanta “Intenção de compra” por alguém. Todos notaram como o nível do Preço havia mudado de um dia para o outro.

Ao ver o Preço mudando tanto pra um nível tão baixo e ainda caminhando de mãos dadas com sua arquirrival a Oferta desapareceu. Ficou alguns dias sem aparecer no colégio Mercado.
Preocupado o Preço foi conversar com a menina para ver o que havia acontecido. Saiu da casa dela pensativo, e foi até a casa da Demanda para tentar por um ponto final no problema.

No dia seguinte o Preço foi até o bairro vizinho numa loja chamada TRADE OFF. Lá ele trocou o seu possante “Produção 100%” por um modelo mais simples, o “Produção 50%” e por uma moto.

Chegando no colégio Mercado o Preço encontrou a Demanda que foi simpática, pois achou o novo carro do rapaz mais adequado aos seus padrões. Logo em seguida encontrou a Oferta que também foi bastante simpática, pois ele estava mais simples, porém ainda se encaixava nos seus padrões.

Nesse dia dia aconteceu algo inédito até então. Tanto a Demanda quanto a Oferta ficaram juntas no mesmo ambiente, pois o Preço era amigo das duas e ambas o adoravam. Dai em diante o colégio Mercado passou a ser Equilibrado, pois a Demanda e a Oferta pararam de brigar o tempo todo.
Porém as vezes o Preço acorda atrasado e vai para o colégio com o “Produção 100%” do seu pai que é muito mais veloz. Ou então acorda cedo demais e resolve ir para a aula caminhando. Nestes dias é briga na certa.

Ao reproduzir este texto, peço apenas que cite a fonte.

by [|-DaRio-|]